SER HUMANO JÁ NASCE COM SENSO DE JUSTIÇA


25-02-2010

RIO - A desigualdade que vemos mundo afora não tem a cumplicidade de nosso cérebro. Um estudo publicado pela revista "Nature" mostra que, dentro de nós, a satisfação é muito maior quando todos têm direito a benefícios. Cientistas do Instituto Californiano de Tecnologia (Caltech) e do Trinity College, de Dublin, reuniram imagens de ressonância magnética que comprovam como o cérebro humano aprecia a igualdade. A descoberta põe em xeque a ideia de que a noção de justiça seria cultural.

Temos, agora, muitas ferramentas para estudar as reações do cérebro
O material obtido comprova que o centro de recompensa existente no órgão responde mais fortemente quando vemos uma pessoa pobre receber algum benefício do que quando o mesmo ocorre com um rico. Para surpresa dos estudiosos, a conclusão é a mesma até na análise do cérebro de endinheirados.

- Esta é a figura mais recente em nosso álbum sobre a natureza humana. Temos, agora, muitas ferramentas para estudar as reações do cérebro - comemora Colin Camerer, professor de Economia Comportamental da Caltech e um dos co-autores do artigo.

Resposta além da regra social
Há muito se sabe que nós, humanos, não gostamos da desigualdade, especialmente no que se refere a dinheiro. Diga a duas pessoas com o mesmo emprego que seus salários são diferentes, e vai haver descontentamento. Não se sabia, porém, o quanto esse desgosto é embutido.

- A aversão à desigualdade não é regra social ou fruto de uma convenção - rejeita John O'Doherty, professor de psicologia da Caltech. - Há realmente algo a ser considerado no processamento de recompensas em nosso cérebro.

A aversão à desigualdade não é regra social ou fruto de uma convenção
Áreas cerebrais como o córtex pré-frontal ventromedial e o estriado ventral, que criam respostas positivas no corpo, foram analisadas em 40 voluntários, submetidos a uma série de situações envolvendo transações financeiras.

Antes de começar o processamento de por ressonância magnética, os participantes foram divididos em duplas. Um ganharia o que era chamado de "grande doação financeira" (US$ 50); outro começaria a experiência de bolsos vazios. O modo como os voluntários - ou, mais especificamente, os centros de recompensa de seus cérebros - reagiram aos vários cenários apresentados dependia fortemente de sua riqueza no início do estudo.

- Quem começou pobre tinha uma reação cerebral mais forte a situações em que recebia dinheiro, e quase nenhuma resposta a cenários em que os ganhos eram para outras pessoas - explica Camerer.

Até aqui, nenhuma surpresa. O que chamou atenção foi o outro lado da moeda.

- Os ricos do início da pesquisa reagiam mais fortemente quando outros ganhavam dinheiro do que nas situações em que eles mesmos eram beneficiados - lembra Camerer. - Em outras palavras, seus cérebros achavam melhor ver os outros enriquecendo.

O'Doherty também se encarregou de resumir o estudo: o cérebro não responde apenas ao interesse próprio do organismo. Os centros de recompensa também reagem à premiação de outros indivíduos.

- Reagimos de forma muito diferente às desigualdades vantajosas e às desvantajosas - conclui. - Somos sensíveis a diferenças sutis no contexto social. De certa forma, isso é contrário às visões prevalecentes que temos sobre a natureza humana. Como psicólogo e neurocientista cognitivo que trabalha com recompensa e motivação, vejo o cérebro como um dispositivo feito para maximizar nosso próprio interesse. O fato de que essa estrutura parece tão adaptada em responder aos benefícios obtidos por outros dá uma nova referência.

Somos sensíveis a diferenças sutis no contexto social
Camerer, economista, assume no artigo que sua visão foi derrubada. Também acostumado a pensar que as pessoas estão mais interessadas em seu próprio benefício, o pesquisador admite que, "se isso fosse verdade, não teríamos as reações apontadas pelo artigo quando outras pessoas ganham dinheiro".

Ricos podem ter sentido culpa
Ainda assim, Camerer lança uma nova interpretação aos resultados do levantamento. É provável que as reações dos participantes ricos tenham sido parcialmente motivadas por interesse próprio: ou a redução de seu desconforto.

- Pensamos que, para as pessoas ricas do início da pesquisa, ver os outros ganhando dinheiro reduz sua culpa por serem mais afortunados - opina.

O próximo passo dos pesquisadores é entender como esta avaliação que o cérebro faz da desigualdade traduz-se no comportamento.

- Uma pessoa que descobre ter salário menor do que outra com o mesmo emprego pode acabar trabalhando com menos afinco, e, além disso, ter pouca motivação - avalia O'Doherty. - Será interessante entender que mecanismos cerebrais dão suporte a essas mudanças.


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